quinta-feira, 28 de abril de 2011

Você

- Acho que gosto de um você que não existe.
- De que jeito?
- Assim, achei que era uma coisa no começo, mas agora vi melhor.
Ele não sorriu, como fazia com tudo que saía da boca dela. Dessa vez, não deu pra forçar.
- Já ouvi tanta coisa de você nos últimos dias...
- Eu sei, devia aprender a me controlar.
- Eu gosto assim.
- Gosta? Da minha frieza, estupidez e descontrole verbal?
- Pelo menos, você é sincera - ele se endireitou na cadeira, provavelmente porque era o único lugar que ele conseguiria se ajeitar depois desse baque. - Eu pensei nisso nos últimos dias...
- O quê?
- Mas você não gosta mais de mim ou nunca gostou?
- Gostei.
- De um eu que nunca existiu.
- Eu disse "não existe".
- Então já existiu...
- Eu não disse isso.
- O que, então?!
Ela hesitou. Não quis olhar pra ele. Na verdade, estava encarando o telão com um clipe dos The Monkeys há muitos minutos.
- Não sei.
- Queria que você nunca tivesse olhado duas vezes.

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