quinta-feira, 9 de junho de 2011

Conversa 9

- Não sei o que aconteceu nesse um mês. Parece que...
Uma pausa. Ele chorava, ela não. Porque ela também não chorava?
- Parece que eu perdi alguma coisa nesse um mês, que não sei o que é. Alguma coisa se perdeu. E sem essa coisa, eu não quero tentar.
- E você não quer nem tentar encontrar essa coisa de novo?
- Se eu não sei o que é, não tenho como procurá-la.
Era uma conversa difícil não pelo teor emocional, mas porque ela podia sentir cada vibração da mágoa dele. Ele negava, dizia que não estava a castigando pelo que ela fizera, mas a mágoa estava ali, impressa em cada palavra, em cada frase. Impressa cada vez que ela tentava falar normalmente, conversando, e ele respondia rispidamente. Impressa cada vez que ela se abria um pouco mais sendo sincera sobre o que sentia de verdade e ele respondia voltando para o "você que terminou comigo". De todos os lados, havia a mágoa.
Quando foi embora, ela decidiu. Sentou-se no quarto, pegou uma folha de papel e escreveu.
"Amor, não dá mais para mim. Não posso ser sua amiga. Sinto sua mágoa emanando de cada palavra que trocamos. Eu tentava ser gentil e paciente, esta é a nova eu, e você era ríspido, seco e irônico. Teríamos trocado de papéis nesse teatro? Você precisa se resolver com essa mágoa para que possamos algum dia ser sequer amigos. Eu não posso resolver por você. Com o amor que não posso lhe dar, Julieta."
Ela dobrou cuidadosamente, colocou em um envelope e foi para uma caixa de correios na esquina da sua rua. Sem endereço, ela postou a carta. Não queria que ela chegasse. Queria apenas sentir como se ele fosse saber o que escrevera.
Ela voltou para casa. Está meio vazia até hoje. Ela e a casa.

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